sexta-feira, 31 de julho de 2009

Porque a gente precisa acreditar na vida

Por Elton Valente

Sempre fui chegado a uma crônica. Admiro e respeito demais os Cronistas. A crônica tem aquele lance mágico de nos transportar para... A Vida! A boa crônica resgata nossa vida, a vida do mundo, das pequenas coisas, das coisas que nos pertencem, daquilo que realmente faz sentido e importa. Pois o resto é ilusão ou vaidade.

Eu poderia recomendar um mundaréu véio de cronistas aqui. Desde gente com estofo e fama, feito Drummond, a cronistas pouco conhecidos, como um que publicava belas crônicas no jornal Diário do Rio Doce, de Governador Valadares.

Mas vou citar apenas um, pela facilidade de acesso ao trabalho dele. Chama-se Samarone Lima, do Recife. Dono do blog Estuário, que pode ser acessado aí, na coluna da direita, em nossa lista de blogs recomendados. Tem muita coisa boa lá no blog do Samarone.

Como aperitivo, recomendo estas duas aqui:

1) (http://www.estuario.com.br/2009/07/26/na-lojinha/).

2) (http://www.estuario.com.br/2009/07/22/o-elefante-azul-2/).

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Drummond na blogosfera mineira e brasileira

Por Elton Valente

Deixei neste instante um comentário no excelente texto (sempre excelentes) do nosso Irmão Marcus Locatelli, no EdafoPedos.

Drummond já apareceu aqui no Tateando Amarras, por uma razão, digamos, um tanto mais prosaica. Em virtude das observações de Fernando Brasil sobre as “observações” de Obama e Sarkozy. Mas isso é outro assunto.

Acontece que Drummond é um fato ubíquo, indissociável da mineiridade. Presente na vida de mineiros e simpatizantes de Minas Gerais. Drummond deixa ainda mais orgulhosos esses que, naturalmente, já são “orgulhosos, de ferro”, como dizia o próprio.

Portanto, eu não poderia deixar de fazer esse comentário aqui e parabenizar o Locatelli pelo seu excelente texto.

Felicidade e muita poesia a todos!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Os blogs e os atos confessionais. Um perigo (?)(!)

Senhores (as) Blogueiros (as) e simpatizantes! Este assunto nos interessa e creio que para muitos já não é novidade. Li hoje uma matéria no Yahoo que trata de um assunto aparentemente banal, mas que encerra uma questão no mínimo interessante.

A matéria é da Reuters de Nova York e trata de um trabalho realizado por dois pesquisadores da Universidade de Vermont. Eles elaboraram um método para medir a felicidade das pessoas, ou melhor, dos blogueiros, a partir do que eles escrevem em seus blogs. Atribuíram valores a determinadas palavras como: vitorioso, paraíso, orgulhoso, suicídio, estúpido, e assim por diante.

Abrindo parênteses: há uma interessante linha de pesquisa nas áreas de Letras e Comunicação Social que se chama “Análise do Discurso”, muitíssimo interessante. É possível detectar com método científico “a intenção por trás do discurso”. É! A vida está ficando cada vez mais difícil!

Mas voltando ao que nos traz aqui, os pesquisadores analisaram um período de quatro anos da vida estadunidense (americanos somos todos nós), a partir de 2,3 milhões de blogs.

Concluíram que o dia mais feliz foi o da eleição do “exterminador de moscas”, Barack Hussein. E o mais triste... não precisa dizer, vocês já sabem. Beat It!

Fora estas banalidades todas, a questão é que muito de seu perfil ou de você, blogueiro, está em seu discurso. O que você coloca em seu blog pode ser um Ato Confessional. Muito embora, juridicamente, se conclua pela relatividade da confissão (não sou jurista, é bom que se diga). Portanto a confissão não é admitida como prova cabal, única, definitiva. Porque, segundo os juristas, o cidadão tem inúmeras razões para a confissão, desde razões morais e éticas até a mais absoluta falta de caráter, além da tortura, é claro.

A confissão pode até ser aceita judicialmente, desde que obedeça a uma série de requisitos (mesmo assim, o cidadão pode se arrepender e contestar, facilmente, a própria confissão). Mas esta é outra face da questão.

O fato é que seu blog pode conter muito de seu “perfil psicológico” e muito de suas “intenções além do discurso” – jargões utilizados por duas conterrâneas e amigas que tenho, profissionais destas áreas, Psicologia e Liguística.

É bom tomar cuidado!

E aqui eu me descuido e me denuncio, mas não vou perder a oportunidade:

ET. Veja como a felicidade costuma andar de braços dados com a mais profunda decepção. O dia mais feliz para os estadunidenses, nos últimos anos, foi aquele da eleição de Barack Hussein, que ainda não se decidiu de que lado está. E parece que não vai se decidir nem nos próximos quatro anos. Ou seja, Tio Sam tem muita decepção pela frente. Isso para a felicidade dos Aiatolás, dos norte-coreanos, Chávez, Evos, Zé-Layas... Que, pelo andar da carruagem, terão uma felicidade muito mais intensa do que a dos eleitores que elegeram Barackinho.

ET. 2 - A matéria no Yahoo pode ser acessada aqui:

terça-feira, 28 de julho de 2009

Ciclagem Biogeoquímica Nos Solos Tropicais (3)

Por Elton Valente

Nestes três textos (neste e nos dois abaixo) estamos fazendo algumas considerações pontuais sobre a Ciclagem Biogeoquímica nos trópicos. O assunto é complexo. Portanto estamos chamando a atenção apenas para alguns pontos, considerando algumas condições geralmente extremas, ou muito restritivas, dos ambientes tropicais. Depois do exposto nos textos anteriores, chamamos a atenção aqui para outro fato interessante.

A definição clássica e simplificada do solo diz que ele é o resultado da ação integrada do clima, dos organismos e do tempo, agindo sobre as rochas. Em outras palavras, o solo é a interface entre a litosfera (rochas), atmosfera e biosfera.

A evolução inicial do solo (sim, o solo evolui) se deu com a evolução dos vegetais e com a evolução dos organismos decompositores da matéria orgânica. Alguns autores consideram, inclusive, uma co-evolução entre algumas angiospermas (plantas cujas sementes se encontram no interior de frutos), organismos como os térmitas (cupins) e os Latossolos (típicos solos tropicais).

Mas as plantas foram (e são) fundamentais neste processo de “construção” dos solos. São elas que produzem a matéria orgânica que, no fim das contas, como já vimos, caracteriza uma “porção de terra” (ou substrato) como solo.

Em condições que vamos chamar aqui de “normais” (para simplificar), mesmo nos trópicos, os solos são fontes de nutrientes (provenientes da decomposição das rochas). As plantas absorvem tais nutrientes, sintetizam carbono (biomassa) e esse material “volta ao solo”(*), na forma de serrapilheira ou nos corpos de animais mortos dos vários níveis tróficos, para ser decomposto (mineralizado). Dá-se então o que chamamos de Ciclagem Biogeoquímica, pois é um processo que envolve o solo, as rochas e os organismos na ciclagem de nutrientes (substâncias químicas) na superfície terrestre.

Mas, quando se trata da natureza, nada é tão simples quanto parece – a lógica é simples, mas os processos são complexos. As condições ambientais nos trópicos, muitas vezes, são bastante estressantes e restritivas. Portanto, nestes ambientes, as plantas apresentam características adaptativas que permitem a elas contornar tais problemas. Em muitos casos, a Ciclagem Biogeoquímica é muito mais Bio do que Geo, como já apresentado nos dois textos anteriores. Ou seja, nestes casos, a “intimidade” das plantas com os solos não é tão estreita quanto se poderia imaginar.

(*)
Veja os dois posts abaixo.

Ciclagem Biogeoquímica Nos Solos Tropicais (2)

Por Elton Valente

No post anterior a este (logo abaixo), fiz apenas uma pequena introdução, de forma simples e ligeira, ao fato que considero muito importante nesta questão da Ciclagem Biogeoquímica, que são os “antagonismos” entre a vegetação neotropical e os solos destes mesmos ambientes.

Há dois pontos principais aí: um é a necessidade de entender melhor estas questões, pelo conhecimento em si, de como comporta a vegetação natural, pela possibilidade de aplicação deste conhecimento na agricultura do futuro (ou alguém aí ainda acredita na inesgotabilidade dos recursos naturais?). O outro ponto, que considero importante, é pela questão do sequestro de carbono nestes tempos de “aquecimento global”, neste caso, permitindo ajustes no manejo dos solos de acordo com suas potencialidades em sequestrar mais ou menos carbono.

Já disse no texto anterior que, nos ecossistemas do neotrópico, em geral, a ciclagem biogeoquímica não se dá por um processo perfeitamente integrado entre o solo e a vegetação. Em muitos casos, nas florestas tropicais, a grande concentração de raízes superficiais, explorando diretamente a manta orgânica, é uma nítida característica adaptativa que denuncia esta que chamo de “falta de integração” entre o solo e a vegetação nos processos de ciclagem biogeoquímica. Em alguns casos, o solo é quase simplesmente um meio para fixação (sustentação física) e uma “caixa” que retém água, pois os principais processos relacionados à manutenção nutricional das plantas encontram-se na manta orgânica. Esta é uma estratégia adaptativa que, na prática, “evita”, tanto quanto possível, o contato dos nutrientes com o solo, onde estes poderiam “se perder” por algumas vias, como lixiviação em solos arenosos e fixação por óxidos em solos argilosos.

Esta situação, descrita no parágrafo anterior, é comum na Amazônia e em ambientes restritivos como aqueles encontrados nos Capões Florestais da Serra do Cipó. Ou seja, em tais ambientes, a grande reserva nutricional encontra-se na própria biomassa vegetal.

A figura(*) abaixo (peço desculpas pela qualidade ruim da imagem) pretende mostrar uma vegetação exuberante, Floresta Ombrófila, e suas respectivas classes de solo, evidenciando a extrema pobreza química dos horizontes sub-superficiais. Este ambiente, localizado na Serra do Cipó, é um bom exemplo desses ecossistemas onde a grande reserva nutricional encontra-se na própria vegetação.

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(*) Também aqui, a figura apresentada e parte desta discussão têm como fonte o seguinte trabalho:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

Ciclagem Biogeoquímica Nos Solos Tropicais

Por Elton Valente

Nesses tempos de “aquecimento global antrópico”(?) a “grande preocupação” é com o que se passa no céu (na atmosfera), os “vigilantes de plantão” vivem buscando sinais de fumaça no ar, afinal estamos respirando tudo isso. Mas há coisas no chão (no Solo) que merecem muita atenção da ciência e da mídia.

O Solo tem uma relação muito íntima com o carbono. Aliás, uma “porção de terra” (um substrato) só ganha o status de “Solo” se apresentar horizonte A. E o que caracteriza o horizonte A, por sua vez, é a presença de matéria orgânica. E este é apenas o princípio desta “relação íntima”. Sob determinadas condições, o solo é um dreno importantíssimo de carbono na forma orgânica (matéria orgânica). Se forem alteradas algumas destas condições, principalmente pelas atividades humanas, aquele solo que era dreno pode se tornar fonte emissora de grandes quantidades de CO2.

Alguns solos, por suas condições naturais do meio, não armazenam grandes quantidades de matéria orgânica. Em outras palavras, o seu estoque de matéria orgânica é reduzido porque neles a ciclagem do carbono é muito rápida, ou seja, há ali uma elevada taxa de mineralização da matéria orgânica, portanto esta não se acumula em grandes volumes. Mas o contrário também é verdadeiro, sob determinadas condições a matéria orgânica pode se acumular em grandes quantidades, a exemplo das turfeiras.

Uma questão importante, que considero ainda pouco discutida, ou pouco explicitada (em que pese minha ignorância), é que este assunto da ciclagem biogeoquímica, nos ecossistemas tropicais, é tratado “em um só pacote”. Ou seja, como se a ciclagem se desse por um mecanismo integrado entre o solo e a vegetação no processo de decomposição da matéria orgânica, o que não é simples assim, muito menos uma verdade. Nos trópicos, em geral, a vegetação compete, “disputa”, com o solo o acesso à matéria orgânica. A vegetação neotropical apresenta nítidas características adaptativas que permitem evitar, ou pelo menos tendem a retardar o contato da matéria orgânica com o solo em um primeiro momento. A manifestação mais visível deste fato é a grande concentração de raízes superficiais nas florestas do Neotrópico, explorando diretamente a manta orgânica depositada na superfície do terreno. Como mostra a figura(*) lá em cima. Pretendemos discutir as razões desse fato num próximo post.

É como se houvesse (e na prática há) uma “luta” da vegetação contra o solo. Nesta luta, busca-se como troféu o primeiro acesso ao material orgânico que se deposita na superfície do terreno. Em geral uma vegetação bem estabelecida, uma floresta, por exemplo, faz isso com relativa eficiência. Aí aquelas frações ditas “lábeis” da matéria orgânica são acessadas rapidamente pela vegetação, como fonte de nutrientes. Restando ao solo, proporcionalmente, aquelas frações “menos lábeis”, que também são chamadas de “frações mais estáveis” ou “recalcitrantes” que, numa definição mais simples, são aquelas frações de difícil decomposição pelos microorganismos. Estas frações contêm compostos químicos “indigestos” e muitas vezes tóxicos, como os compostos fenólicos ou óleos essenciais, geralmente associados à lignina.

Nossos proprietários rurais, na prática, conhecem algumas espécies de árvores cuja madeira é bastante durável, mesmo em contato com o solo. Tais espécies são muito cobiçadas para uso em cercas e outras construções rurais. Elas apresentam em sua madeira altos teores desses compostos. Portanto, mesmo que essa madeira entre em contato com o solo, sua decomposição é muito lenta, o que pode durar décadas. Dois bons exemplos são a Candeia-Preta (Eremanthus erythropappus), da qual inclusive se extrai um óleo muito empregado na indústria, e a Braúna (Melanoxylon brauna), hoje rara e protegida por lei.

Em um próximo post, pretendemos continuar tratando deste assunto.

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(*) A figura apresentada e parte desta discussão têm como fonte o seguinte trabalho:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nós Os Bichos

Aguardando inspiração em prosa, segue um poema de nossa própria lavra, dedicado aos nossos irmãos de Reino e raça. Ou um adicional para entender o enredo desse tango do argentino doido, que é a civilização.

Nós Os Bichos

Nós os Homo sapiens
Nós os irmãos de Darwin
Nós os bichos

Carinhosos
Caridosos
Comovidos

Nós os bichos

Animais diferenciados
Predadores superdotados
Pretos, brancos, índios...

Nós os bichos

Cristãos
Islamitas
Peregrinos

Nós os bichos

Inventivos
Festivos
Famintos

Nós os bichos

Belicosos
Perigosos
Destrutivos

Nós os bichos

Sequiosos
Gananciosos
Assassinos

Nós os bichos

Pretos, brancos, índios...
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Fernando Brasil
13 de fevereiro de 2006

domingo, 26 de julho de 2009

Solos da Serra do Cipó e Suas Fitofisionomias: (5)

Por Elton Valente

Continuação...

Em uma sequência de posts, abaixo, são apresentados alguns perfis de solo, a descrição de suas características gerais e respectiva vegetação. Estão localizados na Serra do Rio Cipó, no Espinhaço Meridional-Sul, em Minas Gerais. Trata-se de um Transecto de Campo Rupestre para Floresta, em um Capão Florestal desenvolvido sobre solos argilosos, derivados do intemperismo de Filito (Rocha Metapelítica). São todos solos ácidos, muito pobres em nutrientes, ricos em matéria orgânica e apresentam altos teores de alumínio trocável. O Capão Florestal ocupa uma área de aproximadamente 14,5 hectares.

Os Capões Florestais da Serra do Cipó são “ilhas” de Florestas circundadas por Campos Rupestres graminosos naturais. Nesta área, os Campos Rupestres desenvolvem-se sobre solos derivados do intemperismo de Quartzito (Rocha Metapsamítica). As fitofisionomias florestais dos capões estudados correspondem a Disjunções de Floresta Ombrófila, com elementos que caracterizam a Mata Nebular.

Entre os elementos que caracterizam a Mata Nebular, naquele ambiente, destacam-se diversas famílias e gêneros de epífitos, como liquens foliáceos e filamentosos, orquídeas, bromélias, briófitas e peteridófitas. A vegetação florestal é floristicamente associada ao bioma Mata Atlântica, embora a região corresponda a um ecótono entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado.

A fonte original destas informações é uma pesquisa de doutorado que trata das relações entre o solo e a vegetação na partes mais elevadas da Serra do Rio Cipó. Foram estudados três transectos de Campo Rupestre para Floresta, a saber: T1 – floresta sobre solos de Filito (Rocha Metapelítica); T2 – floresta sobre solo de Quartzito (Rocha Metapsamítica); e T3 - floresta sobre solo de Anfibolito (Rocha Metabásica).

Nesta sequência de textos apresentada, tratamos apenas do Transecto 1. Os outros serão postados brevemente. Os dados para citação do trabalho podem ser encontrados no fim dos textos (*).

Transecto 1, face de exposição sul: localização dos perfis de solo de 1 a 4 indicados.


Transecto 1, face de exposição norte: localização dos perfis de solo de 5 a 7 indicados.

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Para citação:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Solos da Serra do Cipó e Suas Fitofisionomias: (4)

Por Elton Valente

Continuação...

Dando continuidade a uma abordagem geral sobre alguns solos da Serra do Cipó e suas fitofisionomias, temos um perfil de solo de uma área sob alagamento, por afloramento do lençol freático, cuja água é de percolação lateral (drenagem interna) proveniente da área do Capão Florestal. Não é água do riacho que margeia a área, este corre sobre um leito rochoso de Quartzito, abaixo do nível do terreno.

Trata-se do último perfil de solo do transecto (Transecto 1), de Campo Rupestre para o Capão Florestal que ocorre sobre solos derivados de Rocha Metapelítica (Filito).

Transecto 1, Perfil 7: Cambissolo Flúvico Tb Distrófico Gleissólico (CYbd)


Cambissolo Flúvico Tb Distrófico Gleissólico (CYbd): trata-se de um terreno pantanoso e hidromórfico, formado por sedimentos de colúvio (material removido das partes mais elevadas do terreno para as partes baixas da encosta), sem influência aluvial (depósitos de rio) marcante. O colúvio é derivado dos solos argilosos de montante e foi depositado sobre uma base rochosa de Quartzito. Abaixo do horizonte B, encontra-se um solo enterrado. Não há no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS, 2006) uma classe de Cambissolo cujo segundo nível categórico atenda as condições deste perfil. Mesmo sem apresentar influência fluvial (aluvial), o perfil foi classificado como Cambissolo Flúvico Tb Distrófico Gleissólico, neste caso, por ser esta classe a mais próxima das condições observadas. Trata-se de um solo ácido, muito pobre em nutriente, rico em matéria orgânica e apresenta altos teores de alumínio trocável. É argiloso, derivado do intemperismo de Rocha Metapelítica (Filito). Sobre este solo desenvolve-se uma fitofisionomia florestal, que corresponde a Mata de Galeria.

Assim como nos outros ambientes (de cada perfil de solo), o levantamento florístico foi realizado em um espaço de 800 m2 de área efetiva. Aqui foram amostrados 239 indivíduos. Destes, nesta área, a espécie Trembleya parviflora (família Melastomataceae) corresponde a 39% do total de indivíduos amostrados, a espécie Drimys brasiliensis (Winteraceae) corresponde a 26% do total e Richeria grandis (Euphorbiaceae) com 11%. Portanto, estas três espécies sozinhas participaram com 76% dos indivíduos amostrados.

São espécies comuns neste ambiente: Tapirira obtusa (família Anacardiaceae); Hedyosmum brasiliensis (Chlorantaceae); Richeria grandis (Euphorbiaceae); Talauma ovata (Magnoliaceae); Trembleya parviflora (Melastomataceae); Myrsine ferruginea e M. umbellata (Myrsinaceae); Euterpe edulis – palmito-juçara (Palmae); Posoqueria latifolia (Rubiaceae); Drimys brasiliensis (Winteraceae); entre outras. Com destaque para Drimys brasiliensis e Talauma ovata, que são espécies típicas de áreas alagadas, nas matas de altitude do Neotrópico.

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Para citação:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

OEA é títere de Chávez na questão de Honduras

As declarações de José Miguel Insulza (OEA), feitas ontem, revelam as intenções escusas dessa gente. Para eles não há nenhum acordo que não seja entregar Honduras ao bolivarianismo. Nem mesmo as eleições normais e regulares serão reconhecidas. Matéria da Folha aqui. Recusaram a intermediação diplomática de Oscar Arias, da Costa Rica, suficiente para por fim à crise, porque eles simplesmente não querem o fim da crise. Está aí, nas palavras do secretário-geral da OEA.

A matemática deles é notória. Hugo Chávez só ganha a parada com o retorno incondicional de Zelaya. Por isso eles não querem acordo.

Se Zelaya retornar incondicionalmente, ganha Hugo Chávez, ganha o bolivarianismo e a Democracia vai pro espaço.

Mantido o governo interino e realizadas as eleições de novembro, ganha a Democracia, ganham Honduras e os hondurenhos.

Cadê Barack Hussein, el matador de moscas?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Honduras é reveladora

Por Elton Valente

Sobre a questão de Honduras, alguns incautos ainda não entenderam o resumo da ópera e os desonestos estão se deleitando com ela.

Eu sei que é chato, mas parece que alguns FATOS ainda precisam ser repetidos:

1) Manuel Zelaya, aliado de Hugo Chávez, tentou um “referendo popular” para modificar unilateralmente a Constituição de Honduras e permanecer no poder, como já foi feito, em seus respectivos países, por Hugo Chávez e Evo Morales, e pretende fazê-lo Daniel Ortega.

2) A Suprema Corte de Honduras, com base na Constituição, declarou tal referendo inconstitucional.

3) Zelaya, à moda dos ditadores, tentou aplicar o referendo assim mesmo, usando as Forças Armadas.

4) As Forças Armadas, cumprindo a decisão constitucional da Suprema Corte, destituiu Zelaya e, conforme reza a Constituição, deram posse a Roberto Micheletti, Presidente do Congresso, em um governo provisório que vai até a data das eleições, previstas para novembro/2009. Tudo conforme estabelecido na Constituição daquele país. Ou seja, NÃO SÃO AS FORÇAS ARMADAS QUE ESTÃO GOVERNANDO HONDURAS, E SIM UM GOVERNO CIVIL, PROVISÓRIO E CONSTITUCIONAL.

Com base nos fatos e não em nossa vontade, o cidadão que em pleno gozo de suas faculdades mentais defende o retorno incondicional de Zelaya ao governo de Honduras e ainda qualifica o Governo Provisório de Roberto Micheletti (Presidente do Congresso) como inconstitucional e golpista, tem três opções, não excludentes, para ser qualificado:

1) É simpático a Hugo Chávez e seu bolivarianismo caudilhesco, alinhados ao narcotráfico.

2) Está mal informado e não entende absolutamente nada de Democracia.

3) Assina um atestado negativo, altamente depreciativo, contra a própria inteligência ou conduta moral.

Nos itens 1 e 3 se enquadram, por exemplo, Krupscaia Ali (CNN), Barack Hussein Obama, Miguel D’escoto (ONU) e José M. Insulza (OEA).

É isso!

ET. Nosso confrade Marcelo Hermes, do Ciência Brasil, nos lembra desta matéria aqui no Estadão de hoje. Embora no texto, Demétrio Magnoli ainda chame a operação constitucional que depôs Zelaya de "golpe".

Solos da Serra do Cipó e Suas Fitofisionomias: (3)

Por Elton Valente

Continuação...

Estamos tratando aqui de alguns solos da Serra do Cipó e suas fitofisionomias. Esta abordagem é o terceiro texto, acompanhado de imagens, de um transecto (Transecto 1) de Campo Rupestre até um Capão Florestal que ocorre sobre solos derivados de Rocha Metapelítica (Filito), formando uma “ilha” de floresta, de aproximadamente 14,5 hectares, sobre solos argilosos, circundada por uma vasta extensão de solos rasos de Quartzito (Rocha Metapsamítica), onde floresce o Campo Rupestre.

Transecto 1, Perfil 5: Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico Húmico (LAVd)

Transecto 1, Perfil 6: Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico Húmico (LAVd)

Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico Húmico (LAVd): são dois perfis de solo. O primeiro está localizado em uma encosta íngreme e o outro em um terraço de colúvio, ambos na face norte do terreno. São solos ácidos, muito pobres em nutrientes, ricos em matéria orgânica e apresentam altos teores alumínio trocável. São argilosos, derivados do intemperismo de Rocha Metapelítica (Filito). Sobre estes solos desenvolve-se uma fitofisionomia florestal, apresentando indivíduos remanescentes da vegetação original, anterior às alterações antrópicas (provocadas pelo homem). Estas árvores remanescentes atingem até 30 metros de altura estimada.

São espécies comuns nesta área: Tapirira obtusa (família Anacardiaceae); Guatteria nigrescens e G. selowiana (Annonaceae); Aspidosperma parvifolium – peroba-amarela (Apocynaceae); Ilex sp. (Aquifoliaceae); Eremanthus erythopappus­ – candeia-preta (Asteraceae); Cybistax antisyphilitica e Sparathosperma leucantum (Bignoniaceae); Maytenus floribunda (Celastraceae); Sapium glandulatum (Euphorbiaceae); Casearia decandra (Flacourtiaceae); Kielmeyera neglecta (Guttiferae); Hyptidendron asperrimum (Labiatae); diversas espécies do gênero Ocotea e outras espécies da família Lauraceae, com ocorrência frequente de Ocotea spixiana; Dalbergia foliosa (Leguminosase); Tibouchina stenocarpa (Melastomataceae); Myrsine ferruginea e M. umbellata (Myrsinaceae); Campomanesia guazumifolia, Marlierea laevigata, Myrcia amazonica, M. splendens,Myrciaria sp., Siphoneugena densiflora (Myrtaceae); Geonoma schottiana - aricanga (Palmae); Coussarea contracta e Psychotria sessilis (Rubiaceae); Zanthoxylum rhoifolium (Rutaceae); Aeghiphila obducta (Verbenaceaea); entre muitas outras.

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Para citação:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Últimas Notícias

Nota: os organizadores deste blog não têm ideologias políticas, partidárias, religiosas ou outras quaisquer. Defendemos o uso da Ciência, da razão e do bom senso (temperados com um pouquinho de emoção, porque ninguém é de ferro) como ferramentas essenciais para o desenvolvimento e bem-estar da humanidade.

Notícia 1: O Partido Democratas (DEM) apresentou ontem ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de suspensão de matrículas (previstas para amanhã) de estudantes aprovados no vestibular da UnB por meio de cotas raciais. Matéria publicada no Estadão, veja na íntegra. De acordo com os argumentos da ação, entre outros, as cotas raciais são inconstitucionais e constituem uma “ofensa aos estudantes preteridos porque não pertencem à raça certa”. Por questões de ética e coerência com o que pensamos e defendemos, parabenizamos os autores e defensores da ação.

De forma bem humorada, já tratamos desta questão aqui no blog.

Notícia 2: A União Nacional dos Estudantes (UNE), há muito tempo encampada pelo PC do B, há muito tempo não representa mais a classe estudantil brasileira. Financiada pelo governo federal (desde 2004 já recebeu do governo cerca de 10 milhões de reais), não é nada diferente de outras organizações como MST e algumas ONGs laranjas que existem por aí. Os resultados do último Congresso Nacional dos Estudantes, realizado em Brasília na semana passada, dá uma boa mostra disso. Um pequeno “aperitivo” aqui, aqui e aqui.

Solos da Serra do Cipó e Suas Fitofisionomias: (2)

Por Elton Valente

Continuação do post anterior.

O Capão Florestal estudado neste transecto (Transecto 1) ocorre sobre solos derivados de Rocha Metapelítica, Filito, formando uma “ilha” de floresta, de aproximadamente 14,5 hectares, sobre solos argilosos, circundada por uma vasta extensão de solos rasos de Quartzito (Rocha Metapsamítica), onde floresce o Campo Rupestre.

Transecto 1, Perfil 3: Cambissolo Háplico Tb Distrófico Húmbrico (CXbd)


Transecto 1, Perfil 4: Cambissolo Háplico Tb Distrófico Típico (CXbd)


Cambissolo Háplico Tb Distrófico Húmbrico (CXbd) e Cambissolo Háplico Tb Distrófico Típico (CXbd): a simbologia CXbd é a mesma para ambos (vai até o 4° nível categórico). São solos derivados do intemperismo de Rocha Metapelítica (Filito), argilosos, muito pobres quimicamente, ricos em matéria orgânica e apresentam elevados teores de alumínio trocável. Sobre eles desenvolve-se a vegetação florestal propriamente dita. A composição florística é bastante diversificada.

São espécies comuns nesta área: Tapirira guinensis e T. obtusa (família Anacardiaceae); Guatteria nigrescens e G. selowiana (Annonaceae); Aspidosperma parvifolium – peroba-amarela (Apocynaceae); Eremanthus erythopappus – candeia-preta (Asteraceae); Maytenus floribunda e M. robusta (Celastraceae); Sapium glandulatum (Euphorbiaceae); Casearia decandra (Flacourtiaceae); Hyptis asperrima (Labiateae); diversas espécies do gênero Ocotea e outras espécies da família Lauraceae; Senna macranthera (Leguminosase); Tibouchina stenocarpa e Trembleya parviflora (Melastomataceae); Cabralea canjerana (Meliaceae); Myrsine ferruginea e M. umbellata (Myrsinaceae); Myrcia amazonica, M. coelosepala, M. fallax, M. splendens, Siphoneugena densiflora (Myrtaceae); Guapira opposita (Nictaginaceae); Roupala montana var. brasiliensis (Proteaceae); Aeghiphila obducta (Verbenaceaea); entre muitas outras.

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Para citação:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Solos da Serra do Cipó e Suas Fitofisionomias: (1)

Por Elton Valente

Já falamos aqui alguma coisa sobre a flora da Serra do Cipó, sobre o endemismo naquela área e alguns apontamentos sobre as relações entre o solo e a vegetação naquele ambiente. Consulte os Marcadores aí na coluna da direita.

Portanto, fazendo uma espécie de complementação, vamos mostrar alguns perfis de solo encontrados na Serra do Cipó e algumas espécies vegetais encontradas em cada um destes solos, respectivamente.

Este material foi obtido a partir levantamentos em gradientes de solo e vegetação, em duas sequências, Transecto 1 (T1) e Transecto 2 (T2) que vão de Campos Rupestres para Capões Florestais, numa tentativa de desvendar as relações entre o solo e a vegetação naquela área.

Neste post apresentamos os dois primeiros perfis de solo e algumas informações sobre a vegetação (fitofisionomia) que sobre eles se encontra.

O Capão Florestal do Transecto 1 ocorre sobre solos derivados de Rocha Metapelítica, Filito, formando uma “ilha” de floresta, de aproximadamente 14,5 hectares, sobre solos argilosos, circundada por uma vasta extensão de solos rasos de Quartzito, Rocha Metapsamítica, onde floresce o Campo Rupestre.

Transecto 1, Perfil 1: Neossolo Litólico Húmico Típico (RLh)
Neossolo Litólico Húmico Típico (RLh): Vegetação de Campo Rupestre, composta por plantas herbáceas e sub-arbustivas, onde predominam gramíneas (família Gramineae) e ciperáceas (fam. Ciperaceae). Algumas espécies identificadas: Trembleya parviflora, Lavoisiera imbricata, Leandra aurea, Microlicia sp., Marcetia taxifolia (fam. Melastomataceae); Eremanthus erythropappus (candeia), Richterago lanata (endêmica da Serra do Cipó), Ageratum fastigatum, Boecharis serrulata, Lychnophora sp., Piptocarpha oblongifolia, Vernonia diffusa, V. fruticulosa, V. linearifolia, V. scorpioides (fam. Asteraceae); Rhynchospora consanguinea, Lagenocarpus rigidus (fam. Cyperaceae); Doryopteris ornithopus (fam. Pteridaceae); Chamaecrista desvouxii (fam. Leguminosae); Vellozia sp. (fam. Velloziaceae); entre outras.

Transecto 1, Perfil 2: Cambissolo Húmico Distrófico Léptico (CHd)
Cambissolo Húmico Distrófico Léptico (CHd): área de transição de Campo Rupestre para Floresta, Escrube, com vegetação formada por arbustos, arvoretas e árvores. Vegetação aberta com estrato de vegetação rasteira de Campo Rupestre, composta por gramíneas, ciperáceas e alguma ocorrência de Paepalanthus (fam. Eriocaulaceae, muito comum na Serra do Cipó, rica em espécies endêmicas). As espécies mais comuns encontradas neste local foram: Trembleya parviflora, Tibouchina candolleana (Melastomataceae), Eremanthus erythropappus – candeia (Asteraceae), Inga vulpina – ingá (Leguminosae), Aegiphila lhotskiana – papagaio (Verbenaceae), Tapirira obtusa (Anacardiaceae); entre outras.

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Para citação:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

domingo, 19 de julho de 2009

Aos olhos insones

Por falta de inspiração em prosa, ofereço aos simpatizantes do Tateando Amarras um soneto, de nossa própria lavra. Porque o mundo também precisa de poesia...

Aos olhos insones

Nesse palco mambembe vou singrando
Noites a fio, a madrugada esperando, nessas horas mortas
Por minhas mãos esses versos coxos
Buscam razão para essas linhas tortas

Não que eu queira jactar-me nesse ofício
No altar que os gigantes de outrora construíram
Apenas busco a lucidez que resgata
A razão perdida dos que desistiram

Nesses olhos míopes, vaga-lumes, o enredo de noites a vagar sem sono
Os uivos noturnos desses amantes
Misturam-se aos uivos desses cães sem dono

Quando enfim adormeço, a luz da manhã já singra a madrugada
Os amantes silenciosos recolhem-se em seus leitos
E os loucos ruidosos habitam as calçadas.


Fernando Brasil
17 de junho de 2008.

Relações solo-vegetação no Neotrópico: apontamentos

Por Elton Valente

Este texto traz uma “pincelada geral”, uma introdução, sobre as relações entre o solo e a vegetação no Neotrópico. Assunto ainda pouco estudado, que atualmente vem ganhando destaque no Departamento de Solos da UFV, em projetos do Professor Carlos Ernesto Schaefer. Algumas observações importantes sobre a vegetação neotropical foram discutidas no texto anterior.

— Para citação deste artigo, veja nota no fim do texto (*).

As relações solo-vegetação nos Neotrópicos ainda não são perfeitamente esclarecidas. Há uma grande variedade de adaptações das espécies vegetais a uma gama igualmente variada de condições do ambiente, condições estas muitas vezes bastante restritivas para algumas espécies.

No entanto, há uma ampla distribuição de espécies e formações vegetais nestas áreas, cobrindo ambientes com as mais distintas condições de solo e clima. Um dos aspectos mais importantes da vegetação nativa neotropical é a sua forte adaptação a solos ácidos e muito intemperizados, onde a maioria das plantas desenvolve capacidade de extração e absorção de formas pouco disponíveis, ou lábeis, de macro- e micronutrientes. Tais estratégias estão associadas a diversos mecanismos como exsudação radicular e simbiose com fungos e bactérias, entre outros.

A deficiência em fertilidade pode condicionar seletividade na composição botânica, mas não determina a ausência de vegetação em ambientes naturais. Ainda assim, a baixa disponibilidade em nutrientes torna-se crítica quando associada a outros fatores que promovem a seletividade da composição botânica. Entre os principais fatores que oferecem limitações ao desenvolvimento da cobertura vegetal, a deficiência hídrica é, certamente, o mais limitante e, sob condições extremas, pode determinar a virtual ausência da vegetação.

Um bom exemplo da capacidade adaptativa da vegetação neotropical ocorre na Serra do Cipó. Naquela área, as formações florestais da Mata Atlântica, na vertente leste da Serra, ocorrem sobre Latossolos e Cambissolos derivados do intemperismo de Filito ou Anfibolito, mas podem ser encontradas sobre Espodossolos derivados do intemperismo de Quartzito, em áreas onde o controle estrutural e as condições geomorfológicas favorecem o desenvolvimento de solos mais profundos.

A matriz geológica da Serra do Cipó, no Espinhaço Meridional-Sul, é formada por Quartzitos de granulometria extremamente fina, herdada de um material de origem que certamente sofreu diversos ciclos de intemperismo e movimentação desde o Pré-Cambriano. Tais rochas apresentam características que sugerem uma sedimentação bastante seletiva no Proterozóico, indicando que, nos solos atuais daquela área, a fração silte pode conter teores elevados de Quartzo, que também pode estar presente na fração argila daqueles solos. Fator importante na capacidade de retenção de umidade nos solos arenosos daquele ecossistema.

Nas análises físicas de amostras de solos daqueles ambientes, nos processos de tamisação (peneiramento) por via úmida, para quantificação das areias, observa-se grande quantidade de Quartzo na fração silte (fração menor que 0,053 mm). Este material fica sedimentado nos recipientes durante os processos de separação das areias.

Os Capões de Mata da Serra do Cipó são formações neotropicais fortemente adaptadas a condições bastante restritivas do ponto de vista químico dos solos, mas encontrando condições adequadas do ponto de vista físico, como profundidade e textura favoráveis à retenção de umidade.

Em síntese, em que pesem as diferenças de composição textural dos solos daquela área. Variações estas associadas à variação do material de origem, se Metapelítica (Filito), se Metabásica (Anfibolito) ou Metapsamítica (Quartzito), tais solos são uniformemente muito ácidos e pobres em nutrientes, mesmo quando os teores de matéria orgânica são elevados, o que denota uma condição geral nos capões florestais do Espinhaço (Serra do Cipó): ocorrem sobre solos mais profundos, argilosos ou arenosos, com um mínimo de fertilidade química, em áreas favorecidas A elevada concentração de nutrientes na Manta Orgânica e sua baixa concentração nos horizontes subsuperficiais indicam uma vegetação com alta eficiência na ciclagem biogeoquímica. Fator adaptativo típico de formações vegetais de ambientes oligotróficos (pobres em nutrientes), relativamente comuns nos ecossistemas neotropicais.

Chama a atenção, nestas áreas da Serra do Cipó, a elevada biomassa de epífitos. Estes organismos se caracterizam pela capacidade de crescimento sobre superfícies de rochas, troncos e galhos, entre outras. Característica esta que permite a absorção de nutrientes ainda no estrato aéreo do dossel, interceptando o contato destes com a fase mineral do solo, evitando perdas como a fixação de elementos químicos por óxidos metálicos nos solos argilosos e a lixiviação de nutrientes nos solos arenosos. Além disso, os epífitos se caracterizam também por apresentarem seus tecidos com estrutura pouco ou não lignificada, constituindo-se, portanto, em formas de matéria orgânica de rápida decomposição, acelerando o processo de ciclagem, o que é fundamental nestes ecossistemas oligotróficos.

Além disso, na Serra do Cipó, e talvez em toda a Cadeia do Espinhaço, as condições de pobreza química dos solos, e das rochas que lhes dão origem, são mais extremas do que os dados encontrados na literatura para a maioria dos ecossistemas do Neotrópico. Some-se a isto a constituição textural arenosa da maioria dos solos, as altitudes elevadas e a geomorfologia geral da Serra do Cipó, favoráveis a perdas por erosão e lixiviação.

Portanto, nestes ambientes, a alta eficiência pode ser considerada como sinônimo de alta dependência da vegetação à ciclagem biogeoquímica, uma vez que os solos e as rochas que lhes dão origem são muito pobres em nutrientes. Ou seja, a grande reserva nutricional presente nestas áreas encontra-se na própria vegetação, principalmente nos capões florestais. Depreende-se daí a baixíssima resiliência destes ecossistemas. Se esta vegetação for suprimida, principalmente pela ação antrópica, acarreta-se uma drenagem violenta de recursos químicos, muito além da capacidade natural que o sistema possui de repor nutrientes a curto e médio prazos. O longo prazo requerido refere-se, talvez, ao tempo geológico, que foi necessário para a formação destes ecossistemas, tão peculiares da Serra do Cipó.

Além da forte capacidade adaptativa da vegetação neotropical a solos muito pobres quimicamente, um fato bastante interessante é a quase total ausência de sintomas de deficiência nutricional na vegetação nativa do neotrópico. Ainda que esses sintomas possam ser observados com frequência em ambientes onde convergem diversos fatores estressantes, como é o caso dos Neossolos Litólicos de Campos Rupestres. Nesses locais, os sintomas de deficiência nutricional são visíveis, geralmente pela variação de cor na planta.

Em condições naturais, o sintoma mais comum é por deficiência de fósforo, com matiz arroxeado. Mas é bom lembrar que as variações de cor nas plantas nem sempre são sintomas de deficiência nutricional, pode ser característica da espécie ou cultivar, que inclusive pode ser utilizada para fins de Taxonomia, principalmente de orquídeas e outras plantas ornamentais. Há um excelente texto abordando alguns desses aspectos aqui no blog do Locatelli.

Um bom exemplo dessas variações de cor por deficiência de fósforo, em Campos Rupestres, ocorre com a orquídea Acianthera teres (veja aqui com o Locatelli), muito comum em afloramentos de Quartzito na Serra do Cipó. Esse pigmento vermelho-arroxeado desaparece quando a planta recebe adubação equilibrada.

(*) Para citação deste artigo:

VALENTE, E. L., 2009. Relações solo-vegetação no Parque Nacional da Serra do Cipó, Espinhaço Meridional, Minas Gerais. Viçosa: UFV, 2009, xvii, 138p.: il. Tese (Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas).

E o futuro da agricultura?

Por Elton Valente

Nota: Este texto foi publicado originalmente no blog Geófagos, em 17/12/2008. Sua republicação aqui tem o objetivo de fazer um “gancho” para o próximo texto, em que pretendemos tratar das relações entre o solo e a vegetação no Neotrópico.

Analisando alguns dados sobre as condições ambientais das partes elevadas da Serra do Cipó, na Cordilheira do Espinhaço, frutos de um estudo que trata das relações entre o solo e a vegetação naquele ambiente, surgiram algumas reflexões interessantes.

Naquele ecossistema, o gradiente de vegetação, de Campo Rupestre para Floresta, acompanha o gradiente de solo. A vegetação vai se tornando mais elevada e densa na medida em que o solo torna-se mais profundo. Os solos são todos ácidos, extremamente pobres quimicamente e ricos em alumínio trocável. Ali, a principal estratégia da vegetação, segundo algumas de nossas conclusões, é a ciclagem biogeoquímica. Mais Bio do que Geo, diga-se.

No entanto, a vegetação florestal é robusta. São disjunções de Floresta Ombrófila ocorrendo a mais de 1.200 metros de altitude. Não há evidências de desnutrição na fitomassa. Ocorrem indivíduos com até 30 metros de altura estimada e mais de 200 cm de circunferência de tronco. Isso revela, de acordo com nossas conclusões, uma alta eficiência dessas espécies em utilizar os poucos recursos disponíveis e, com eles, sintetizar altas taxas de carbono. Em outras palavras, estas espécies sintetizam muito carbono, na forma de fitomassa, com pouquíssimos recursos minerais. Isso me fez refletir sobre algumas questões, entre elas, o futuro da agricultura e os possíveis caminhos que podem ser percorridos pelas ciências agrícolas. Ciência do Solo e Fitotecnia, por exemplo.

Os maiores avanços obtidos na agricultura, desde que o homem (ou a mulher) domesticou algumas espécies, tiveram como foco a produtividade. No último século, esses avanços foram espantosos. Ao aliar o melhoramento genético com a modificação, ou ajuste, de ambientes antes negligenciados, como o Cerrado no Brasil, produziu-se uma verdadeira revolução nos modelos e processos de produção agrícola. O Brasil é um excelente exemplo disso.

Muitos entusiastas desse novo modelo de produção agrícola chegaram a dizer que a Teoria Malthusiana (Thomas Robert Malthus, 1766-1834) estava equivocada. Será? Algumas questões nesse enredo não são novas, mas como estão se tornando cada vez mais pertinentes, vale repetir pelo menos uma delas: Os sistemas agrícolas vão suportar a pressão do agronegócio por longo prazo?

E aqui podem entrar outras questões: Qual será o futuro da agricultura? Qual será a demanda para o Engenheiro Agrônomo e para a Ciência do Solo? Será que com nossa visão eminentemente mecanicista do mundo nós estaremos preparados para elas?

Em resumo, o modelo de agricultura do agronegócio promoveu a produtividade, sem se preocupar com as necessidades de consumo das culturas. Essas espécies (ou cultivares) necessitam de um ambiente "ajustado" às suas necessidades. Necessitam de altas doses de nutrientes para manter suas altas taxas de produtividade e fechar os seus ciclos produtivos com a eficiência desejada. Estas culturas apresentam ainda aquilo que nós chamamos de "consumo de luxo", em que o aumento na absorção do nutriente e sua concentração nos tecidos não são acompanhados por aumento no crescimento ou produção.

Por outro lado, as espécies nativas, em condições naturais, possuem alta eficiência na absorção de nutrientes (utilizam estratégias como associações simbióticas e exsudatos radiculares para "ajustar" a rizosfera); possuem alta eficiência na síntese de carboidratos sob condições adversas e apresentam menor demanda nutricional e, claro, menor produtividade quando comparadas às espécies "melhoradas".

E aqui entram algumas questões que me ocorreram: Qual é a taxa mínima de disponibilidade de nutrientes que estas espécies nativas conseguem suportar? Qual será o comportamento delas mediante uma melhora na CTC do substrato, aumento do pH do meio e um aumento nas doses de nutrientes disponíveis? Elas responderão positiva- ou negativamente a essas mudanças? Qual a importância dessa alta eficiência na utilização dos poucos recursos disponíveis, mediante a uma agricultura que promoveu a produtividade sem se importar muito com os impactos de modificações do meio (o solo), nem com as exigências nutricionais das culturas?

Utilizando o comportamento das espécies nativas como balizador, será possível, num futuro próximo, conciliar estes dois extremos? Ou seja, será possível desenvolver adaptações, ou modificações genéticas, nas espécies cultivadas para que elas forneçam produtividades economicamente viáveis, exigindo baixos teores de nutrientes e poucas alterações no substrato (o solo)?

Quem sabe não está aí uma importante e promissora linha de pesquisa para a próxima década?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ziraldo e a revista Bundas

Já que a palavra bunda foi assunto do texto passado. Vou contar uma história aqui, acreditando que deve haver quem não a conheça.

Ziraldo, obviamente, todo mundo conhece! Mineiro de Caratinga. Ninguém precisa apresentá-lo. Ele por si se apresenta. O pai do Menino Maluquinho (ou o próprio Menino Maluquinho). Prefeito de Timólei-Mólei. Pai da Professora Maluquinha e um dos fundadores, senão o fundador, de O Pasquim. Ziraldo fazia (faz?) parte de uma turma de esquerda. Mas até então a esquerda brasileira politicamente atuante (patológica) ainda não tinha mostrado definitivamente a que veio, com suas garras, sua baba, seu veneno e seus dentes. Mas isso é outro assunto.

Voltando ao homem! Há dez anos (junho de 1999) Ziraldo lançou, pela Editora Pererê, a revista Bundas. Que saiu de circulação no ano seguinte (não por censura, mas por problemas financeiros). Colaboravam com a revista, gente do quilate de Millôr e Jaguar. E assim lançaram Bundas: “a revista que é a cara do Brasil”; “quem mostra a bunda em Caras, não mostra a cara em Bundas”. A revista não era exatamente e estritamente uma anti- Caras (a revista de “celebridades globais”), era muito mais que isso, de quebra era uma espécie de oposição a Caras. Até porque, dizia Ziraldo, ele não descartava a possibilidade de que um dia pudessem ser unidas Caras e Bundas (creio que com Bundas pondo vergonha na Caras).

Com a repercussão do lançamento da revista, Ziraldo apareceu no programa da Hebe, para horror dos simpatizantes e colaboradores mais radicais da revista. Muita gente boa criticou-o. Diziam que ele não estava lá para esculhambar com as caras de Caras, mas para se deleitar com elas. Não sei! Acho que a crítica foi um pouco injusta com ele. Já pensou na possibilidade? Você esculhamba com os caras e com a Caras, mas com uma categoria tal que eles ainda lhe convidam para mostrar Bundas na Caras deles. A crítica mais dura a Ziraldo nem quis saber dessa possibilidade. Ou se pensou não considerou que era justificável. Muitos se recusaram inclusive a assistir ao referido programa.

Mas, enfim! O projeto de Bundas era ousado. Aquilo não ia dar certo. Embora fosse uma dessas loucuras geniais do Ziraldo, mas de qualquer forma era uma loucura. Não tinha como dar certo. Se fosse na França ou nos Estados Unidos, talvez a idéia e a revista pudessem vingar por mais tempo. Pois apesar do susto inicial do título, a revista não era o que se poderia imaginar por sugestão do nome. Ao contrário, usava e abusava do expediente clássico dos humoristas, que é “mostrar que o Rei está nu” por via da galhofa, esculhambando para dizer coisas sérias. Mas, infelizmente, tudo isso se foi.

Há algo de admirável e necessário nos velhos tempos do jornalismo, fazendo muita falta nesses tempos novos.


A palavra... bunda

A bunda apareceu em dois momentos aqui no blog (sem trocadilho). No texto ela desfila em português e francês (derrière). Na imagem ela surge no foco de Barack Obama, conforme denunciado pela flagrante fotografia. Foi então que surgiu nos bastidores – do blog, é bom que se diga – um questionamento se a palavra bunda é ou não é palavrão.

Esclareço! A questão foi posta, a discussão se estendeu, perscrutou-se a gramática e a etimologia, e chegou-se à conclusão democrática de que bunda não é palavrão. Digo democrática porque esse entendimento não foi unânime. Houve quem discordasse. Argumentei que o ilustre, respeitado e tímido poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade havia publicado um poema inteirinho dedicado a ela, a bunda. Portanto, não deve ser palavrão. Houve dúvidas, justificáveis, sobre a existência do tal poema. Apresentei então o dito cujo, assinado por Sua Excelência, o Poeta. Muito embora o livro, onde o poema se encontra, por solicitação do próprio Drummond, tenha sido publicado após sua morte.

E a discussão prosseguiu. Pois existem alguns monossílabos, dissílabos, trissílabos e polissílabos que já nasceram palavrão, não dá para disfarçar. Há outros que isoladamente não o são, mas, dependendo do contexto e do sentido da oração ou, principalmente, quando precedidos de um verbo e um artigo definido são impublicáveis. Geralmente são obscenidades, coisas obscenas, ou que descrevem atos obscenos. Coisas que não devem ser expostas em público, e assim por diante. A bunda em si não é obscena. Ao contrário. Aquelas que podem ser apresentadas, geralmente são belas, sensuais. E a sensualidade não é obscena.

Mas o fato é que não se chegou a um consenso definitivo sobre a palavra bunda. Se ela é ou não é um palavrão. Há quem continue considerando que sim, um pouco mais leve, mais ainda assim um palavrão. Não daqueles cabeludos, embora o objeto bunda tenha pelos e apelos.

Com a palavra, as autoridades:

Dr. AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA não indica conotação chula para a palavra bunda no Dicionário (Nova Fronteira, 1999, 3. ed.):

Bunda(1). [Do quimbundo mbunda.] S. f. 1. As nádegas. 2. A parte carnosa do corpo formado pelas nádegas. Bunda(2). Relativo a bundo. Indivíduos indígenas bantos de Angola.

Agora, Sua Excelência o Poeta CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, em:

A bunda, que engraçada (*)

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

(*) Poema extraído do livro O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade (Record, 1992). Livro finalizado em meados dos anos 70 e publicado, por solicitação do autor, após sua morte – antes disso, alguns poemas foram publicados isoladamente em revistas, mas CDA evitava publicar o livro.

Enfim, tirem suas próprias conclusões, pois ainda não chegamos a um consenso definitivo sobre a matéria.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Para entender a mídia na questão de Honduras

Por Elton Valente

Nota: Um texto nosso tratando da questão de Honduras foi postado no Ciência Brasil, por gentileza de Marcelo Hermes, blogueiro de excelente lavra. Este que agora publicamos é uma espécie de desdobramento daquele.

Embora “Lineu”, conhecido de Fernando Brasil, sabiamente tenha desistido do “Paradoxo Honduras” por questões de saúde, eu volto ao tema porque reuni, nestas breves linhas, algumas informações (ou uma convergência de fatores) que explicam bem o comportamento da mídia geral nesta questão (*). As vozes destoantes na mídia geral foram exceções raras e honrosas, como Mary O’Grady, colunista do “Wall Street Journal”, Gerald Warner do “Telegraph.co.uk” e Reinaldo Azevedo, no Brasil.

O ponto mais importante é que a CNN (que alguns já estão chamando de “Chávez News Network”) pautou praticamente toda a cobertura jornalística do imbróglio. A Coordenadora da CNN para a América Latina, sediada no México, acreditem, chama-se Krupskaia Alis. É isso mesmo, Krupskaia, o sobrenome da mulher de Lenin, Nadezhda Krupskaya – revolucionária de coturno e fuzil. Mas o que isso tem a ver? Só pelo nome, nada! Mas acontece que a Krupskaia latina, colombiana de Cali, tem um “currículo” curioso: Além do nome (dado pelo pai sandinista), ela foi (é?) casada com um também sandinista e fez parte do governo de Daniel Ortega (Nicarágua). Creio que não precisa dizer mais nada dessa moça.

O presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel D’escoto, é nicaraguense, sandinista convicto e aliado de Hugo Chávez.

O secretário geral da OEA é José Miguel Insulza, membro do Partido Socialista chileno, foi ativista do governo de Salvador Allende. É afinadíssimo com Hugo Chávez. Questionado sobre o fato de Hugo Chávez violar as leis nacionais da Venezuela, saiu-se com uma pérola da retórica político-moderna (usada também por Obama em relação a Irã e Coréia), disse não estar seguro “de que a OEA possa atuar em casos relacionados a poderes locais ou à distribuição administrativa do território”. É mole?

O principal articulador contra a deposição de Zelaya é, óbvio, Hugo Chávez. Sua intenção é (era) incorporar Honduras na sua “Alternativa Bolivariana”, ALBA, composta por Venezuela, Nicarágua, Cuba, Bolívia, Equador, Dominica, Antígua e Bermuda, São Vicente, Granadinas e Honduras que, sob Zelaya, era parte da lista. Peru, muito provavelmente é o próximo.

Entende-se por que Barack Obama, que se aliou a essa gente, está sendo chamado de “Camarada Obama” ou “Barack Fidel Che Obama”. Este último, é de autoria de Gerald Warner do “Telegraph.co.uk”.

Essa gente da “esquerda revolucionária”, às vezes festiva, é ardilosa demais!

É preciso ter cuidado!

(*) Estas informações foram obtidas na página da CNN, da OEA, da ONU, blog do Reinaldo Azevedo, Wikipédia, IG e alguns periódicos on-line.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Flora da Serra do Cipó (para nosso Amigo Manuel)

















Por Elton Valente

01) Campo de Microlicia sp. (Richterago lanata - endêmica)
02 e 03) Campo de Vellozia sp.
04) Campo de Xyris sp.
06) Capão Florestal com Vochisia sp.
08, 09 e 10) Cipocereus minensis
13) Phoradendron sp. (parasita)
14) Kielmeyera cf. rubriflora
15) Billbergia cf. porteana sobre Tabebuia impetiginosa
16) Ribeirão Mascates - Bowdichia cf. virgilioides (Sucupira-Branca)

Veja mais consultando os posts mais recentes e os Marcadores na coluna da direita do blog.

Endemismo na Serra do Cipó: pra não dizer que não falei das flores

Por Elton Valente

As espécies arbóreas das formações florestais da Serra do Cipó, em geral, são de ampla distribuição geográfica neotropical e, em um aparente paradoxo, co-existem com uma considerável variedade de espécies endêmicas dos Campos Rupestres.

A gênese desses ambientes, e de qualquer outro, é o resultado de um processo dinâmico onde cada elemento do sistema, seja ele biológico ou não, responde de acordo com suas potencialidades, constituição e limitações. Esta resposta se dá positiva- ou negativamente em função de diversos fatores, como por exemplo, localização geográfica, solo e clima.

A Cadeia do Espinhaço, cuja formação remonta ao Proterozóico Médio, com cerca de 1,8 bilhão de anos, já experimentou flutuações climáticas diversas, desde glaciais até a semi-aridez. Os elementos biológicos, principalmente a vegetação que ali se desenvolveu e ainda se desenvolve, colonizaram aquela área ajustando-se a tais flutuações climáticas e outras mudanças do meio físico, como processos geotectônicos e erosivos que o sistema experimentou ao longo desse tempo geológico. Portanto, o que se tem hoje naquele ambiente, ou em qualquer outro, é o resultado momentâneo de um processo longo e dinâmico que ainda não cessou.

Em regiões como a Cadeia do Espinhaço, fatores relativos ao relevo estrutural concorrem para o isolamento biogeográfico de tais áreas. A vegetação, de acordo com as potencialidades e limitações de cada gênero, espécie ou indivíduo, responde de forma diferenciada às condições quase sempre estressantes do meio.

Algumas espécies herbáceas apresentam pouca capacidade de dispersão ampla de propágulos (sementes). Por outro lado, são grupos de plantas muito resistentes a elementos estressantes, como o fogo, o vento e a seca. Apresentam individualmente, portanto e em geral, baixa biomassa e ciclos curtos. São menos exigentes às condições do meio e não apresentam tendência ao desaparecimento sob pressões negativas. Se as condições estruturais da área concorrem para isolar determinadas comunidades, ou grupos de indivíduos, estes tendem à especiação (formação de novas espécies). A especiação neste caso pode se dar, não raro, em ambientes muito próximos. Situação muito comum no Espinhaço Meridional.

As espécies arbóreas, de ciclos longos e elevada biomassa, em relação às herbáceas, são naturalmente mais exigentes em determinadas condições do meio. Mas por outro lado, podem apresentar grande facilidade na sua distribuição. Sob condições desfavoráveis, elas tendem a desaparecer e, uma vez que as condições do meio voltam a ficar favoráveis, elas retornam, devido à sua ampla capacidade de dispersão. Há, portanto, uma reentrada de propágulos (sementes), seja pela ação da fauna de mamíferos e aves, seja pelo vento ou outro fator qualquer. Isso implica, conseqüentemente, em fluxo gênico. Daí a baixa probabilidade da ocorrência de espécies arbóreas endêmicas nestes locais, mesmo que estas convivam, em áreas muito próximas, com endemismos nas espécies herbáceas, como é o caso da Cadeia do Espinhaço.

domingo, 12 de julho de 2009

Ainda sobre Sarkozy, Obama e a Brasileira

Este texto faz referência ao post “Obama, Sarkozy e o Derrière da Brasileira”, postado lá embaixo.

Não é de hoje que a anatomia feminina brasileira chama a atenção das autoridades. Isso vem de priscas eras. Tem um texto, publicado originalmente no blog Geófagos em 26/07/2008 por Elton Valente, que trata deste assunto. Ei-lo:
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Pero Vaz de Caminha, a Heterose, a Evolução e a Raça Brasileira: Um Ensaio
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Senhores, isto não é uma hipótese, muito menos uma tese, nem contestação, talvez uma constatação e apenas um ensaio, uma digressão para aproveitar o restinho das férias.

Nestes tempos politicamente corretos, mas de idéias vazias e interesses torpes, uma expressão que traz a palavra "raça", no que se refere às populações humanas, deve causar algum frisson, tanto entre os bem intencionados quanto entre os hipócritas. Digo já! Sou contrário às "cotas raciais" ou qualquer outra coisa do gênero. Na sua tentativa de juntar pela força da lei, as cotas segregam e eu sou a favor da mistura livre, da beleza da miscigenação. Nesse quesito, a História Brasileira é quase uma fábula, e nem é necessário citar Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Holanda, renomados estudiosos da Brasilidade. Mas sobre a fábula, o médico, antropólogo, etnólogo, professor, ensaísta, poeta e primeiro radialista do Brasil, Roquette-Pinto, disse certa vez: "Martius demonstrou que a história do Brasil seria fábula ou romance se lhe faltassem as bases da etnografia regional, e da etnografia geral".

Então vamos à História e aos fatos. Aqueles europeus caucasianos, ou judeus, ou outros quaisquer, segregacionistas, endogâmicos, principalmente os mais ricos, os da "nobreza", da Europa, Estados Unidos, África do Sul (do apartheid calvinista), Austrália e etc., que por razões segregacionistas diversas como econômicas, religiosas ou de puro preconceito, praticavam e ainda praticam a endogamia, produziram como resultado aquela gente com muito peito e pouca bunda, para ficar só no fenótipo.

Por outro lado, aquele europeu que veio para o Brasil, sem pendor ou pudor segregacionista e com muita necessidade, e se deslumbrou com nossas índias nuas e com as pretinhas africanas cheias de charme, produziu no seu afã um choque genético racial, uma heterose, um vigor híbrido, um verdadeiro avanço no sentido da evolução humana, tanto Darwinista quanto sócio-cultural ou etnogenética, em todos os sentidos. Eis a Mulher Brasileira, com peito, bunda, brilho, inteligência e etc. Ou alguém aí não conhece a Juliana Paes?

Estes europeus, dados à miscigenação, vieram já no primeiro contingente da Esquadra de Cabral que aportou nestas terras. Aqueles dois grumetes que fugiram e os dois degredados que aqui foram deixados certamente estão entre eles e, de quebra, inauguraram a raça brasileira. Mas o ilustre da Esquadra é outro, chama-se Pero Vaz de Caminha. Há um trecho de sua famosa Carta - que a hipocrisia da Igreja Católica cortou de nossos livros de história - em que ele descreve, com maestria e deslumbramento, a anatomia pubiana de nossas índias. Vou transcrevê-lo daqui a pouco.
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Salomão, quando comparado a Pero Vaz de Caminha, perde de longe com o seu pretenso Cântico dos Cânticos. O poema de Salomão é uma tentativa de sedução fracassada de um bode velho. O trecho da carta de Caminha é o deslumbramento de um artista diante do novo, do inusitado e do belo.

E não sejamos machistas. A coisa aconteceu também, ou principalmente, do ponto de vista das mulheres. Muitas das Damas da Corte e muitas das mulheres dos senhores de engenho, barões e coronéis se deixaram seduzir pelos índios e pelos negros africanos.

Vide o caso (com trocadilho e em todos os sentidos) de Ceci e Peri - a nobre portuguesa e o índio guarani - Ficção? José de Alencar sabia das coisas! E tem mais. As índias e africanas também se deixaram seduzir por aqueles branquelas europeus. Na região leste de Minas Gerais tem uma história emblemática, em que a filha do Cacique de uma tribo dos Aymorés, Lorena, se apaixonou por um colonizador português. Diante da proibição veemente do Cacique, que era contra o romance, ela pulou de um despenhadeiro, na face escarpada de um paredão de granito que hoje recebe seu nome, Pedra Lorena, na cidade mineira de Aimorés. Triste e sublime amor. Qualquer semelhança com Romeu e Julieta ou Ceci e Peri, ou Iracema, terá sido mera coincidência. Embora Iracema tenha morrido de tédio.

Mas para a felicidade geral da nação, são muitas as histórias menos trágicas e mais libertadoras, como o famoso casamento de João Ramalho com Bartyra, filha do Cacique Tibiriçá, para horror de Padre Anchieta e seu séqüito de jesuítas do Planalto de Piratininga (São Paulo), pois João Ramalho, além de ter muitos filhos com outras índias, era um homem casado, cuja família ficara em Portugal.

Ainda no século XVI, os calvinistas (intolerantes e radicais extremados), cujas aventuras fracassaram por aqui, espalharam boatos de toda sorte na Europa, principalmente na França, apimentando-os com a nudez de nossas índias, para detratar o ilustre Nicolas Durand de Villegagnon, famoso Cavaleiro de Malta, Diplomata e Almirante francês que fundou a lendária França Antártica no Brasil.
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A França Antártica foi uma colônia francesa instalada no Rio de Janeiro por Villegagnon entre 1555 e 1567, e teve até uma capital na Baía de Guanabara, denominada Henriville em homenagem a Henrique III da França.
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Consta que a confusão armada pelos calvinistas envolveu até a belíssima Jacy, filha do temido e respeitado Cacique Cunhambebe, da tribo Tupinambá, amigo e colaborador de Villegagnon, com o qual redigiu um dicionário Tupi-Francês. E a França Antártica se perdeu, mais por conflitos internos e desentendimentos entre os próprios calvinistas, que aqui estiveram a convite Villegagnon, do que propriamente pela resistência portuguesa. Ou seja, fracassaram porque não souberam lidar com a liberdade que a natureza lhes proporcionava aqui.

E não vamos nos esquecer de Chica da Silva (ou Xica da Silva, como queiram), que é em si o resultado da preta no branco, e que encantou de forma arrebatadora o famoso contratador João Fernandes de Oliveira, nada menos do que o então mais poderoso e mais rico cidadão destas plagas. E a mulata se tornou A Rainha de Diamantina (Arraial do Tijuco) no século XVIII.

Se estas são as histórias dos famosos, dos nobres e as filhas dos caciques que, portanto, foram dignas de registros históricos, imagine-se o que não fez a peãozada, a plebe, e as não menos graciosas índias, negras e mulatas menos famosas, ou seja, o povão, principalmente os que aqui chegaram nos primeiros anos da colonização, como aqueles dois grumetes foragidos da Esquadra de Cabral, dos quais nem se sabe o nome, mas que escaparam de uma existência de horror e sevícias (sendo eles os seviciados) para viver a liberdade plena sob a glória e sobre as filhas de Tupã.

Então, para finalizar, voltemos à Carta de Caminha, onde ele descreve as índias de Pindorama. Este trecho da Carta deveria fazer parte da letra do Hino Nacional Brasileiro, de tão revelador que é. Primeiro porque Caminha demonstra conhecer bem o assunto, quando compara a anatomia feminina entre nossas índias e as damas de Portugal. Segundo, por sua segurança em tratar deste assunto com o Rei de Portugal e ainda dizer que as daqui são mais formosas do que as de lá. Terceiro, se Caminha com todo o domínio da matéria ficou deslumbrado com nossas índias, imagine quem ainda não tinha visto uma mulher completamente nua, ao vivo, e se deparou com uma Cunhã-Porã nas praias brasileiras. É impossível não misturar as raças.

Eis o trecho da Carta:
"...Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas de cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam." "...E uma daquelas moças era tão tingida de baixo a cima, e certo era tão bem feita e tão redondinha, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela..."

E fim de papo!

Obama, Sarkozy e o Derrière da Brasileira

Parece que é isso mesmo, minha gente! Obama e Sarkozy foram flagrados fazendo um check out no derrière da brasileira, identificada como Mayara Tavares (17), durante a reunião do G-8. Bush também foi flagrado em situação similar durante as Olimpíadas de Pequim, em 2008, lembram? Pois é! Às vezes somos assaltados por nossos instintos, e isso é mais comum do que podemos imaginar. Afinal, somos ou não somos mamíferos da ordem dos Primatas? Então! Dr. Darwin explica tudo isso muito bem e de forma muito mais convincente do que Dr. Freud. Se você consultar os registros da cultura e da história humana vai perceber que sempre foi assim.

Aqueles que acreditam no criacionismo ainda podem colocar a culpa disso tudo no próprio Criador.

Quer ver? Neste caso, o mundo seria outro e, diga-se de passagem, muito mais tranqüilo se o Criador tivesse permitido que o próprio Adão fabricasse Eva e fosse ajustando o protótipo a seu modo, sem um modelo definitivo. E que esse poder fosse repassado a todos nós que viemos depois de Adão. Como consequência, alguns transtornos famosos da cultura e da história teriam sido evitados. Por exemplo:

Adão não teria cometido o tal pecado, simplesmente por que fazendo Eva a seu modo, ela não precisaria seduzi-lo, quando é justamente aí que mora o tal pecado.

Sansão não teria perdido seus longos e preciosos cabelos, nem sua legendária força, para uma Dalila maldosa.

Davi não precisaria fazer a desgraça que fez só por causa da mulher de Urias.

Salomão não teria gastado tanto tempo e saliva com a tal Sulamites – Menos mal neste caso, Salomão resolveu registrar o fato e do aranzel todo restou um belo e longo poema de sedução.

Herodes não precisaria se enrabichar para o lado de sua sobrinha, evitando uma tentativa de sedução incestuosa, sem sucesso, que no fim ainda sobrou para João Batista, que foi decapitado injustamente, pois não tinha nada com a história.

Marco Antônio não precisaria abalar-se até o Egito, onerando os cofres do Estado, só para 'pegar' Cleópatra, que brincava demais com cobras numa época sem soro antiofídico e sem pílula do dia seguinte. Deu no que deu.

Ainda na velha Roma, seria um ato sem sentido aqueles tarados romanos, comandados por Rômulo, raptarem as Sabinas provocando uma guerra.

Édipo não precisaria matar seu pai e pior, pasmem-se, para “ficar” com a própria mãe.

Não teria sentido, na tragédia de Shakespeare, Romeu morrer por causa de Julieta e vice-versa. De outro modo, inevitavelmente, a história teria o happy end que todo mundo quis.

Vocês se lembram de Bill Clinton? Pois é, ele não precisaria ter sofrido as agruras do risco de um impeachment por causa daquela moça, Mônica, e, na tentativa desesperada de escapar do tal impeachment, não teria cometido atos extremados como jogar bombas e mísseis na cabeça dos iraquianos (sim, ele também fez isso) que não viram, ou muito menos souberam do affair.

E por fim, evitar-se-ia muitos outros constrangimentos e desgraças que certamente ainda estão por vir, em decorrência da manipulação equivocada de um mísero pedaço de costela (de Adão para fabricar Eva) que, pelo que se tem notícia, fosse assado ou frito, mal daria como tira-gosto para tomar uma cachaça mineira no boteco da esquina.

Muito embora, no caso de Obama e Sarkozy, devemos reconhecer que é muito difícil resistir a um derrière brasileiro.


O Paradoxo de Lineu

Dia desses Lineu acordou cedo, era domingo e, como sempre fazia, passou a vista pelo jornal. Deteve-se nas matérias mais importantes. Depois deu uma olhadela no encarte dominical das crianças. Sempre havia ali uma historinha interessante. Desta vez havia um paradoxo para a criançada resolver. Dizia o texto: – Vovô sempre disse, e algumas crianças mais levadas já confirmaram a hipótese, que se um gato for jogado para cima ele sempre cai de pé. – Vovó afirma, e isso já aconteceu com a maioria das crianças, que a fatia de pão, com manteiga de um dos lados, sempre cai com o lado da manteiga virado para baixo. – Então o que acontece se uma fatia de pão, com manteiga, for amarrada às costas de um gato e essa dupla for jogada para cima? Parar no ar não vai, vovô e vovó afirmam que tudo o que sobe, desce.

Lineu achou graça da brincadeira. Funcionário público. Bem informado. Dado a conjecturas e proposições para solucionar os problemas da humanidade. Lineu ficou pensando na brincadeira. Ficou refletindo. Ficou imaginando o que poderia acontecer se naquele “experimento” o pão com a manteiga tivesse o mesmo peso do gato, em condições controladas e etc. Não quis admitir que o destino daquele conjunto insólito seria esborrachar-se no chão de qualquer maneira. Não! Ele queria prever, estatisticamente, em condições razoavelmente controladas, qual seria a situação de maior probabilidade de ocorrência. Ficou praticamente o dia todo tentando resolver mentalmente o “paradoxo”. À tardezinha, Lineu, já na meia idade e descuidado com os hábitos alimentares e dado ao sedentarismo, ainda tentando resolver o “paradoxo do gato”, teve um pequeno AVC e perdeu os sentidos.

Recebeu atendimento médico em tempo hábil. Mas só recobrou os sentidos quase dois dias depois no hospital. Sua esposa, D. Rosa, cochilava em uma cadeira. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o “paradoxo do gato”. Tentou afastá-lo temendo efeitos colaterais e chamou D. Rosa, que chamou a enfermeira e foi um alívio geral. Continuou internado em observação. O “paradoxo do gato” sempre voltava, mas Lineu se livrava dele. Recuperou-se bem, sem nenhuma sequela, e voltou para casa, sem saber as notícias do mundo. Sabedora de seus hábitos, D. Rosa foi logo lhe adiantando: “já que você está recuperado, graças a Deus, tem duas notícias bombando: Uma internacional, deram um golpe em Honduras. Outra nacional, parece que o problema da Presidência do Senado já foi resolvido. Os jornais estão todos lá na estante, como você gosta.”

Lineu saiu apressado, precisava inteirar-se de tudo. Queria deter-se na questão de Honduras, portanto foi direto aos resultados do Senado brasileiro. Ele não esperava que a coisa se desenrolasse exatamente e descaradamente como ocorreu, no vai e vem da “combatividade a serviço da governabilidade”. Mas, diante do histórico geral daquelas casas, admitiu que a solução foi digna dos “solucionadores”, embora, nas suas convicções de homem reto e bem informado, o Brasil saíra perdendo mais uma vez.

Daí passou direto para o caso de Honduras. Não acreditou. Os jornais diziam uma coisa, mas pareciam querer dizer outra. Lineu não estava entendendo. Ligou para Roberval, seu colega e amigo, com quem sempre discutia essas questões. Roberval confirmou tudo. Inclusive que os telejornais estavam dizendo a mesma coisa. Que o enredo era aquele mesmo. Que Obama, Hillary, CNN, ONU, OEA, ALBA, Hugo Chávez, estavam unidos, mesmo que isso pareça absurdo. E todos contra o governo interino. Roberval ainda sentenciou: “eu acho que foi golpe!” Lineu não podia acreditar. Foi consultar a internet. Os principais jornais. Todos com a mesma conversa. Em um deles, famoso, encontrou o seguinte parágrafo: “Zelaya foi derrubado do poder no último dia 28 em um golpe orquestrado pela justiça e pelo congresso e executado por militares, que o expulsaram para Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.”

Lineu ficou intrigado. A redação diz uma coisa, Zelaya foi contra as decisões constitucionais do Parlamento, da Corte Suprema e das Forças Armadas. Portanto atentou contra a Constituição. Ou seja, tentou dar um golpe e por isso foi deposto. Mas o jornal está querendo dizer outra coisa, que Zelaya havia sofrido o golpe. E era exatamente isso o que a CNN, os jornais, Obama, Chávez, a mídia, todas as “autoridades” estavam dizendo.

Lineu assustou-se, não teve dúvidas, estava diante de um “novo paradoxo”, muito mais complicado de resolver. Temendo por sua saúde, não quis saber mais do assunto.

sábado, 11 de julho de 2009

Sobre a natureza dos Blogs


Tenho blogado por aí, faz algum tempo. Embora eu tenha amigos que levem esse assunto muito a sério, sempre digo que é preciso ter responsabilidade, mas é preciso também ter bom humor. Considero que não há sentido em ser espartano com blogs.

Balizando-se pelo bom senso, um blog pode ser divertido, mesmo tratando de assuntos sérios. E acho importante também a interdisciplinaridade, a crítica, a denúncia séria, mesmo que seu blog trate de Ciências, Astrofísica, Medicina, Biologia e o diabo a quatro, principalmente em tempos de mandos e desmandos políticos, com a mídia oficial geralmente comprometida com o sistema.

Profissionalismo em blogs?? Ora, bolas! Um dos principais elementos transformadores da web não é exatamente o fato de que ela dá voz aos amadores?

É claro que é preciso ter bom senso. Principalmente respeitar o vernáculo para se adquirir um pouco de credibilidade. Mas a web também é livre para aqueles que não usam o bom senso com frequência e ainda agridem sistematicamente a língua pátria.

Costumo brincar com o fato de que o Supremo Tribunal Federal extinguiu a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Portanto, agora todos os jornalistas são oficialmente amadores. E restou uma interessante questão sobre o que distingue um profissional de um amador. Tal questão não é tão simples quanto parece. Aplique-a a todos os ramos do conhecimento. Aplique-a à redação de textos, jornalísticos ou não. E você verá.

Brinco com isso. Mas particularmente, não concordo com a extinção da obrigatoriedade do diploma, como fez o STF. A profissão de jornalista envolve uma série de questões sociais, éticas, técnicas, políticas... E tais questões são bem tratadas pelas boas escolas de Comunicação Social. Acho que não dá para prescindir da formalidade destes conhecimentos. Embora tenhamos bons exemplos de grandes jornalistas que não tinham diploma. Mas isso foi em outros tempos.

Se você tem pós-graduação em determinado ramo do conhecimento, isso não lhe desqualifica para emitir suas opiniões em outros assuntos. Muito pelo contrário, sua opinião pode ser pertinente e importante. Tenha certeza de que, na rede, as cretinices serão combatidas. E o “império da mediocridade” também. Um bom exemplo foi aquele da jornalista Ruth de Aquino, diretora da Revista Época, que emitiu uma opinião insensata sobre a Ciência. Pois é! A blogosfera científica reagiu e se manifestou com força.

Desse modo, nós respeitamos os espartanos, mas o Tateando Amarras não pretende sê-lo. Nem doutrinar ninguém. Antes, queremos brincar, de forma respeitosa, com assuntos sérios. É tanto mais uma diversão do que um compromisso.

O blog é livre, não trata de nenhum assunto específico, mas também não pretende tratar de todos, o que também não quer dizer que não o faça. Não queremos ensinar ninguém a plantar ou colher. Já tentamos certa vez e não deu certo.

Vamos penas tatear algumas amarras da vida. Algumas um pouco mais, outras um pouco menos. Vez em quando pode até pintar uma poesia por aqui.

Porque, já dizia Alberto Caeiro, pela voz e pela pena de Fernando Pessoa: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... / Se falo da natureza não é porque saiba o que ela é. / Mas porque a amo, e amo-a por isso, / Porque quem ama nunca sabe o que ama / Nem por que ama, nem o que é amar...”